Vivemos e trabalhamos hoje de sorrisos escondidos, com medos e inseguranças, mas na certeza de que tudo faremos para que os nossos utentes estejam bem!

 

Vivemos hoje num mundo pautado pelo medo do contágio pelo novo coronavírus, aquele inimigo “invisível” que obrigou a todos adotar novas formas de vida em sociedade.

Nas instituições sociais o cenário não é diferente, utentes e funcionários viram os seus dias transformados, na forma de vestir, na convivência, nas rotinas de trabalho, nos circuitos de deslocação e até na privação completa de algumas práticas e rotinas. Também não será novidade que as instituições que dirigem a sua ação para o envelhecimento têm passado por inúmeras dificuldades procurando a cada dia criar planos rigorosos e estratégias bem definidas para evitar o contágio pelo vírus, e assim continuar a garantir o bem-estar e os cuidados básicos essenciais aos seus utentes, digo os essenciais porque muitas outras atividades tiveram que cessar por força maior. Tenho a certeza que os profissionais dão o seu melhor todos os dias mas sei igualmente que alguma coisa pode falhar nesta nova realidade.

Os idosos podem ser os mais vulneráveis a esta pandemia, dadas as fragilidades decorrentes da idade avançada e tantas vezes a presença de doenças (cardiovasculares, diabetes, insuficiência renal, dificuldades cognitivas pela presença de demências) e tudo isto cria nos colaboradores o medo de transmissão do vírus mas simultaneamente a angústia de não poder fazer mais e melhor. Mas quero ressalvar que, também se tem caído no “erro” de generalizar e atribuir estas características a todos os idosos, quando na verdade alguns deles apesar da idade são autónomos e verdadeiros “empreendedores” da sua vida. Para estes últimos, o confinamento tem-lhes “roubado” a liberdade, autonomia e poder de decisão em relação a si.

Falarei um pouco da minha experiência como Animadora Sociocultural nas valências SAD, Centro de Dia e Centro Convívio numa IPSS onde foram necessárias mudanças  imediatas e urgentes que conciliem a tríade: utentes, família e cuidados face ao vírus.

Numa fase inicial vivenciamos a tristeza de ter que explicar aos nossos utentes de Centro de Dia, Centro de Convívio a presença deste novo vírus e por isso a “obrigatoriedade” do confinamento dos mesmos em casa, vincando a ideia de que teriam que se proteger dadas as suas fragilidades. Aqui começaram as incertezas “Até quando vamos ficar em casa?”, pergunta para a qual ainda hoje não temos resposta. Numa segunda fase foi a explicação aos utentes do SAD da necessidade de uso de equipamentos de protecção, para continuarmos a assegurar os serviços no domicílio com toda a segurança e cumprindo as recomendações da Direção Geral de Saúde.

As primeiras reacções dos utentes foram de estranheza, medo e dúvida mas com o tempo e com as relações de empatia já criadas conquistamos de novo a confiança dos mesmos. Como devem calcular o nosso trabalho pauta-se em boa medida pelo toque, pelas emoções tantas vezes traduzidas nas nossas expressões faciais, algo que o vírus nos roubou. Vivemos e trabalhamos hoje de sorrisos escondidos, com medos e inseguranças, mas na certeza de que tudo faremos para que os nossos utentes estejam bem!

Devo confessar que a minha angústia se prende ainda mais com os utentes do Centro de Dia e Centro de Convívio cuja integração na instituição se prende tantas vezes com a solidão e isolamento vivenciado, com sentimentos de tristeza e apatia. Relativamente a estes, os que necessitam de apoio nas refeições e higiene passamos a prestar apoio domiciliário não sendo, mesmo assim igual, ”falta o convívio, a rotina de sair e entrar em casa a horas, de fazer ginástica diariamente” como nos dizem. No início de abril decidimos que faríamos uma visita semanal a casa de todos os utentes de Centro de Dia e Centro de convívio, devidamente equipados, de maneira a criar regularidade de visitas e a responder mais uma vez aos seus gostos e interesses e necessidades (farmácia, supermercado, idas ao médico entre outras). Queremos continuar a ser outros significativos com quem os nossos utentes podem contar para viverem melhor, respeitando a sua individualidade.

Atendendo à especificidade de cada utente procuramos desenvolver actividades (exercício físico, treino cognitivo, avaliação sinais vitais, conversação, trabalhos manuais entre outros) de maneira a que se mantenham ocupados e distraídos e com isto que os dias não pareçam semanas.

Creio que estamos a fazer o melhor, embora saibamos que não chega para a felicidade dos nossos utentes e isso verifica-se nas expressões “Veio a semana passada? Mas parece que já passaram meses!”, o tempo parece uma eternidade e a saudade de amigos, da instituição e do convívio é muita. Além disto temos percebido que algumas demências se agravaram e que a incerteza do futuro traz consigo a desistência face à vida bem como um discurso de proximidade à morte “Já não acredito, não vamos voltar ao centro, daqui é para o cemitério!”. Há uma regularidade nos discursos, pouco emotivos e tristes.

Resta-me ainda referir que há famílias que se viram “obrigadas” a ficar em casa para prestar cuidados aos seus familiares vendo seus empregos comprometidos e sem direito a qualquer subsídio de apoio. Em cada visita somos confrontados pelos utentes e/ou familiares “quando vamos ter uma resposta para nós?”.

Vivemos e trabalhamos hoje de coração apertado entre mais uma troca de equipamento, uma desinfecção de materiais e espaços e um sentimento “abrasador” de, nestas circunstâncias, não conseguirmos fazer mais e melhor pelos utentes e seus familiares.

Deixo ainda a minha consideração e admiração a todos os profissionais desta área que trabalham horas seguidas, muitas vezes sobre a forma de espelho para que nunca faltem os cuidados. A estes profissionais também pelo seu esforço em dias de calor quando chegam “molhados” à instituição, pois o uso de EPi´S não deixam espaço a respirar. Mesmo assim assumem a sua missão com toda a garra e determinação.

Não menos importante, “louvar” as instituições pelo esforço financeiro dos últimos tempos, sem utentes, com pagamentos reduzidos e gastos substanciais, mas necessários, em equipamentos de protecção individual, desinfectantes, termómetros, descartáveis etc, que continuam a garantir a segurança e o bem-estar daqueles a quem dirigem a sua acção.

Assim, resta-me dizer que os tempos são de constantes mudanças e reajustes mas igualmente de esperança para que possamos brevemente voltar à normalidade! O futuro, não sei como será, mas sei que teremos que reinventar/reajustar as nossas práticas com a mesma dose de amor!

Ana Isabel Silva

Animadora Sociocultural | Centro Social Paroquial de Figueiró