No artigo 25º da Declaração Universal dos Direitos Humanos podemos ler: «Toda a pessoa tem direito a um nível de vida suficiente para lhe assegurar e à sua família a saúde e o bem-estar, principalmente quanto à alimentação, ao vestuário, ao alojamento, à assistência médica e ainda quanto aos serviços sociais necessários, e tem direito à segurança no desemprego, na doença, na invalidez, na viuvez, na velhice ou noutros casos de perda de meios de subsistência por circunstâncias independentes da sua vontade.»
Sublinho “direito (…) à saúde e bem-estar (…) na velhice”. Não podia ser mais claro.

 

Numa sociedade cada vez mais envelhecida, é de lamentar que “os velhos” ainda não tenham o respeito e proteção que justamente merecem. São os que mais deram pela sociedade que se vêem mais abandonados pela mesma.

 

Por mais dissabores que a vida pode ter, que muitas vezes roubam a vontade de sorrir aos nossos idosos, pelo menos que não deixem de sorrir por falta de dentes. E não, a perda de dentes não é uma inevitabilidade! “Os velhos” não têm de ser desdentados!

 

Os principais motivos da perda de dentes são a cárie e a doença periodontal. A cárie é uma infeção que destrói os tecidos dentários, a doença periodontal é uma infeção que destrói os tecidos de suporte dos dentes (osso, gengiva e ligamento periodontal). São vários o fatores que podem levar ao desenvolvimento destas doenças, mas o principal fator é, sem qualquer dúvida, a placa bacteriana. Os restos alimentares, em conjunto com a saliva, formam um ambiente propício ao crescimento de bactérias na boca, que em conjunto constroem a placa bacteriana como uma proteção para as próprias bactérias. Acontece que estas bactérias ao digerirem os restos alimentares produzem ácidos capazes de destruir os tecidos dentários e tecidos de suporte.

 

A melhor forma de evitar a progressão destas doenças é manter uma higiene oral rigorosa. Ao fazer a higiene oral diária, é removida esta placa bacteriana. São cuidados muito simples mas também muito eficazes. Segundo a Direção Geral da Saúde, deve-se:

 

  • Escovar pelos menos duas vezes por dia (uma delas obrigatoriamente à noite), com uma pasta não abrasiva, com flúor, utilizando uma escova macia;
  • Utilizar o fio dentário e os escovilhões para remover a placa bacteriana nos locais onde a escova não chega;
  • Se usar prótese dentária, escovar a prótese diariamente, verificando se está adaptada.
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Nem sempre os idosos são capazes de manter estes cuidados de forma correta e autónoma, pelo que nestas situações estes cuidados deverão ser assegurados pelos familiares ou cuidadores a cargo.

Existem outros fatores a ter em conta. Tratando-se de idosos, é importante considerar que, com o avanço da idade, produzimos cada vez menos saliva, e a saliva tem uma função de proteção muito importante, pelo que a sua redução aumenta o risco de cárie e doença periodontal. Além disso, muitos dos idosos são polimedicados e são vários os medicamentos que também reduzem a produção salivar, nomeadamente alguns anti-hipertensores, anti-depressivos e anti-histamínicos. A esta redução da produção salivar chamamos xerostomia, e muitas vezes obriga à toma de produtos que estimulem a produção de saliva.

 

Os cuidados diários são essenciais, mas também é extremamente importante manter as visitas regulares ao médico dentista, para que se possam identificar precocemente quaisquer alterações que necessitem de tratamento. Na boca não existem só dentes, e muitas vezes o médico dentista pode identificar outras patologias até mais graves, como o cancro oral.

 

Hoje em dia, a ideia de que os mais idosos são desdentados é completamente obsoleta. É perfeitamente possível ter uma vida longa com os dentes saudáveis. Basta manter os cuidados, desde cedo até sempre, como com qualquer outro órgão do corpo humano. E se algo correr mal, e realmente se perderem os dentes ou parte deles, são várias as opções para reabilitar. Próteses removíveis ou próteses fixas, com ou sem implantes, existe sempre uma solução para voltar a colocar dentes nas bocas dos idosos. Naturalmente estes tratamentos têm um custo associado que muitas das vezes está bem acima das possibilidades financeiras dos idosos, logo na fase das suas vidas em que geralmente vêem os seus rendimentos reduzidos. A opção mais em conta, será sempre cuidar dos nossos dentes naturais. Não existem dentes mais baratos ou de melhor qualidade.

 

Pode parecer que se está a falar apenas de dentes, mas é bem mais que isso. Estamos a falar da capacidade de mastigação, que possibilita uma correta e equilibrada alimentação, sem restrições de alimentos mais duros ricos em fibra que leva muitas vezes ao aumento de consumo de alimentos mais moles e geralmente mais açucarados (iogurtes e papas). Estamos a falar de estética, que muito condiciona a autoestima e o bem-estar. São várias as alterações do corpo humano com o avanço da idade, mas a perda de dentes é algo perfeitamente evitável. Estamos a falar ainda da capacidade de comunicar oralmente de forma correta e percetível, sem constrangimentos, evitando o isolamento por parte dos idosos. E, mais importante de tudo, estamos a falar de sorrisos. Afinal de contas, os idosos também sorriem!

Daniel Pinto Ferreira, Médico Dentista na Malo Clinics